

Data: 10/02/2009 - 20:44
Descrição:
E pra cada dia que se passava, mais ele
ficava explosivo. Maior era o efeito dos
seus instintos. Eram controláveis até
certo ponto. Mas suas expressões e
gestos nervosos denunciavam seus gritos
ínteriores e quando sozinho, seus gritos
(não mais interiores) lhe diziam o
quanto mais estava perto da loucura.
Não eram poucas as vezes, ao dia, que se
pegava batendo suas mãos, alucinando que
socava um estranho no rosto, ou
perfurava seu abdomên, deixando o
sangue, junto com as entranhas alheias,
lavar suas mãos insanas.
Sua mente o torturava. E tentando
conter, ou ajudar, sua loucura, se
torturava também. Se estapeava, se
furava, quando ninguém estava olhando.
Fincava suas unhas na pele e depois de
alguns milimetros aprofundados, torcia a
pele, queria arrancar por completo toda
a pele e músculos do seu braço e ver de
perto seus ossos, espremer cada nervo e
sentir as piores dores do mundo. Ao
invés disso, só se permitia ficar com os
braços cobertos de cascas de ferida, que
depois seriam arrancados no mesmo
ritual.
Tudo isto ele fazia para controlar o
pior, que cada vez mais sentia estar
perto.
Sabia que chegaria a hora em que, para
controlar sua loucura, teria de arrancar
um dos olhos. Já havia pensado em como
seria, na frente do espelho do banheiro,
com uma faca de serra indo e vindo na
superfície da íris, lentamente. Já
estaria cego deste olho, mas não
pararia, não desmaiaria. Ia continuar
serrando o olho como quem abre um pão. O
sangue escorre quente, nos seus
pensamentos, até tocar a frente da
camisa, em seguida desce até os pés e
seria a sensação de estar com lama entre
os dedos. Neste ponto, ainda consciente,
fraqueja e com a faca na mão desaba,
sentindo a pancada seca da sua testa na
borda da pia. Hmm. Quem sabe, em quanto
cai, a faca não se arrasta em uma de
suas orelhas, ou axilas, ou ao menos
rasga a pele entre o indicador e médio.
Hmm.
Isto tudo para evitar o que pode ser
muito, muito, pior.
A agonia de ser ele o faz esquecer a
mesquinheza do mundo. As pessoas.
Qualquer doutrina. Qualquer amor.
Todas as idéias.
Tudo se mistura no seu sangue. O antigo
com o novo, o real e o imaginário. As
pedras, os olhos, as mãos e a noite.
São todos gritos íntimos.
Seu sangue que berra.
Sua loucura agoniada.
Seu futuro, carapuçando-o.
Tudo nele foge do que está,
inevitavelmente, chegando. E será muito,
muito pior.